5/02/2008

A natureza do mundo

O mundo é tudo o que é o caso (TLP 1). O que é o caso, o fato, é a existência de estados de coisas (TLP 2). O estado de coisas é a ligação de objetos (coisas) (TLP 2.01). O objeto é simples (2.02).

Wittgenstein inicia o Tractatus com uma série de afirmações sobre a natureza do mundo, sendo que a primeira vista, para um leitor desavisado, estas afirmações podem parecer afirmações dogmáticas e gratuitas. Entretanto, as teses de Wittgenstein sobre a natureza do mundo seguem tanto historicamente como logicamente (no sentido da descoberta destas teses) das teses sobre a linguagem, ou seja, a partir da sua investigação sobre a linguagem e em quais condições ela é capaz de representar significativamente o mundo, Wittgenstein elaborou suas teses sobre a natureza do mundo.

Para ver claramente a forma lógica das proposições moleculares é preciso realizar uma análise destas proposições. No fim desta análise encontram-se proposições elementares, que são proposições inanalisáveis e simples, formada por nomes simples combinados entre si. Se o mundo é determinado e a linguagem deve representar este mundo, então a análise deve terminar em elementos que estão, nas proposições, no lugar de algo, no mundo, representando o mundo. Dessa forma, os nomes representam, espelham, os objetos no mundo.

Os objetos, simples, combinam-se formando estados de coisas possíveis. Wittgenstein não deu exemplos de objetos, assim como não deu exemplo de nomes, mas ele diz que não é contra os nossos sentimentos, nossas intuições, que não possamos analisar proposições até mencionar os elementos por nomes, pois o mundo deve consistir de elementos, deve ser definido, pois tem uma estrutura fixa (NB p.62), que são os objetos (TLP 2.027), afinal, “ainda que o mundo seja infinitamente complexo, de modo que cada fato consista em uma infinidade de estados de coisas e cada estado de coisas seja composto de uma infinidade de objetos, mesmo assim deveria haver objetos e estados de coisas” (TLP 4.2211). Algumas interpretações afirmam que os objetos são fenomenológicos, são os dados dos sentidos, enquanto a interpretação fisicalista diz que os objetos são elementos no mundo físico, independente dos nossos sentidos1. Mas mesmo sem ter dado exemplos e mostrando que não é contra-intuitivo afirmar a existência de objetos, Wittgenstein mostrou como eles devem ser.

Veremos isto na próxima postagem.

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1. Hintikka (1986) defende a posição fenomenológica de que os objetos são os dados do sentido, enquanto Carruthers (1990), argumentando contra Hintikka, defende que esta posição é insustentável. Para mim, se o Tractatus for interpretado de um modo realista, então não é possível que os objetos sejam dados do sentido, de acordo com as evidências textuais de Wittgenstein.

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