3/27/2008

O mérito de Russell

TLP 4.0031:
"Toda filosofia é 'crítica da linguagem'. (Todavia, não no sentido de Mauthner.) O mérito de Russell é ter mostrado que a forma lógica aparente da proposição pode não ser sua forma lógica real."

WIttgenstein por muito tempo seguiu os passos de Frege e Russell, ora concordando e abraçando as idéias, ora discordando e desenvolvendo novas idéias. Neste aforisma do Tractatus, Wittgenstein admite como mérito de Russell mostrar que uma proposição ordinária qualquer esconde sua forma lógica real.
Frege havia feito algo semelhante, mas Wittgenstein atribuiu a Russell este mérito por acreditar que Russell tinha a melhor resposta.

Para Frege, uma proposição como "O atual rei da França é careca" é uma proposição sem valor de verdade, pois o termpo "o atual rei da França" não possui referencia, e portanto, a proposição não pode ter valor de verdade.
Para Russell isto era inaceitável. "O atual rei da França é careca" é uma proposição nitidamente falsa. E para mostrar que é falsa, Russell faz uma anáslie desta proposição, mostrando que "O atual rei da França é careca" é uma espécie de resumo de três outras proposições: "(1)Existe um x que é rei da França, sendo que (2) para qualquer y, se y é rei da França, então y é igual a x, e (3) x é careca".

Desse modo, uma proposição pode ter valor de verdade independente do fato de que um objeto satisfaça ou não a descrição onde ele apareça. Ou seja, "O atual rei da França é careca" é falso justamente porque a proposição (1) da análise é falsa. Não existe um x que é rei da França.

Wittgenstein, seguindo as pegadas de Russell, parece ter percebido que é essencial para uma proposição que ela tenha valor de verdade. Ou seja, se algo não possui valor de verdade, não é proposição.
E com esta análise realizada por Russell, é possível perceber que uma proposição possui valor de verdade independentemente do valor de verdade das proposições resultantes da análise (que, claro, devem também ter valor de verdade).

O valor de verdade da proposição é que depende do valor de verdade das proposições resultantes da análise, mas o possuir um valor de verdade independe do valor de verdade das proposições resultantes.

Mas Wittgenstein se pergunta, nos Notebooks (p.2):
"Existe uma análise completa? Se não existe, então qual é a tarefa da filosofia?"

Será que é posível analisar uma proposição até que a análise esteja completa?
Quais as consequências destas reflexões, em Wittgenstein?

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